Arquivo mensal: outubro 2012

UM HOMEM COM UMA DOR É MUITO MAIS ELEGANTE

      O pitoresco sempre chama a atenção, não? Como não notar uma pessoa com cacoete? Esses hábitos ou manias que muitos repetem sem notar: mexer no cabelo, nos óculos, cutucar a unha, subir as calças ou esticar o pescoço como se estivesse enforcado na gravata; são tantos os gestuais conhecidos como “tiques nervosos” mas, tocar ou coçar o nariz involuntariamente, talvez leve o troféu.

      Nem mesmo Slavoj Žižek, renomado filósofo e pensador, famoso por criticar as culturas atuais e interpretar inventivamente o mundo contemporâneo, escapa. Basta assistir um de seus vídeos para perceber que o também chamado “Elvis Presley” da filosofia, ou “rock star intelectual” gesticula, é incisivo, ágil e convincente, mas seu nariz não descansa, é exigido a cada minuto, então, haja esforço e concentração para esquecer o nariz e ouvir atentamente os ensinamentos do professor esloveno.

      Heróico esforço é manter a seriedade quando o cacoete é de linguagem, alguns são graves, outros nem tanto.

      Exemplifico: acabo de chegar da fisioterapia. Já viram como recepcionistas ou atendentes de clínicas são prestativos? fui logo recepcionado com um sonoro: – “tudo bem?” Por óbvio que se estivesse bem eu lá não estaria. Contudo, se ela me perguntasse:  Como está? ouviria com certeza, outra pérola, que já deveria estar desgastada pelo uso: – melhor que ontem e pior que amanhã, ou talvez, num instante sombrio limitasse a resposta às dores, ordinárias companheiras inseparáveis, ou ao corriqueiro, tudo bem, quem sabe.

      Esse é um dos males dos vícios de linguagem. Fala-se por falar, para impressionar ou por “força de expressão”.

      Quer evidência maior que esta? Certa vez um amigo foi convidado para representar uma sociedade em um passamento ilustre, e, impossibilitado de fazer-se presente, autômato responde: “Fica para outra oportunidade”… o ilustre teria que se dar ao luxo de morrer novamente.

      Mas, vamos ao tratamento. Eis que já no início da sessão sou orientado a tratar a dor com ondas curtas, penso nas ondas curtas e médias: – não dá para ser em FM?  Risos. Afinal, rir não é o melhor remédio?

      Juca Chaves já afirmou que no dia em que despertou sem dor, achou que tivesse morrido.

      Sobrevive-se  zombando  da  própria  dor.   É  o  que  me  socorre.

    Há que se ter bom humor, ainda que negro por vezes. Esse costuma ser o melhor deles. Aprendi a tripudiar da dor. Apanhado rindo dela, já fui questionado: tá rindo de que? Quando é possível fazer graça, conto que a felicidade se dá porque já tenho um pé no céu, não deixa de ser verdade. Talvez um tanto chocante, mas como foi em1969,  aos 09 anos de idade, que perdi a perna em um acidente, sigo brincando com a dor e no melhor estilo Monty Python, vivendo a vida como ela é.

“De que máscara
 se gaba sua lástima,

de que vaga 
se vangloria sua história,

saiba quem saiba.”

(Leminski)

A lástima pode ser de outra natureza e Marisa Monte a traduziu melhor em “De Mais Ninguém”

“… A dor é de quem tem. É meu troféu, é o que restou, é o que me aquece sem me dar calor. Se eu não tenho o meu amor, eu tenho a minha dor.

     

       A música também era uma das paixões do paranaense Paulo Leminski. O chamado poeta marginal, publicou grandes obras que renderam uma discografia rica e variada. Letrista debochado como em Verdura gravada por Caetano, ou requintado na parceria com Itamar Assumpção; deixou extensa e relevante obra. Seu último poema, com trecho citado acima chamou-se Hai Kai.

Dor Elegante   

(Itamar Assumpção e Paulo Leminski)

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

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A terra, o fotografo, a cidade, BR 500 e depois

Existirá a canção de Caetano
Cantada só ao hermano, ou não
Será que Gil já mandou mal
E como foi, Bethânia e Gal
O que será que será que fez Chico
Jogou no lixo, era tal qual Yolanda?

Partido em dois, o que virá depois?

Reginaldo, Waldick e Odair
Na mesa de bar a ouvir
o som desses moços e Roberto
Tá tudo bem, Tá tudo certo!

(“Tudo Bem”, Nelson Pietroski)

CANTE UM POUQUINHO PARA MIM

“Eu me sentaria sozinhoradio antigo
E olharia sua luz
Meu único amigo
Pelas noites adolescentes
E tudo
Que eu preciso saber
Eu escuto no meu rádio”


Já  se disse que à cada perda corresponde um ganho, e o fundamento básico seria que ao perder-se, abre-se o vazio indispensável para outras conquistas. Contudo, há o medo de perder-se que pode nos privar de tudo. Parece um clichê comum aos textos de auto-ajuda; mas a realidade cotidiana é infalível: tudo passa cada vez mais rápido. Inevitável perdermos alguma coisa. Por outro lado,  isso leva a encarar novas percepções, dimensões, estruturações, ainda que cheias de  ambivalências, vamos nos acomodando às perdas, aprendendo à administrá-las,  sobrelevando-se. Le paradis est toujours à refaire  assim resumiu André Gide, o paraíso deve sempre refazer-se.

Antigos anúncios testemunham o quanto as coisas mudaram:

“Rádio o que há de novo?
Rádio, alguém ainda te ama”

Um oásis se vislumbra na velocidade digital e na disseminação das bandas largas. Antigos megatons, megahertz, frequências de ZYJ como as difusoras do largo da matriz, tem migrado ao novo universo e o paraíso começa a refazer-se por completo.

“Vamos esperar que você não
Nos deixe, amigo
Como todas as coisas boas,
Dependemos de você
Então apareça,
Pois sentiremos sua falta
Quando crescermos cansados
De todo esse visual
Você teve seu tempo,
Você teve o poder
Você ainda terá
Sua melhor hora
Rádio”

Multiplicam-se exemplos de importantes resgates como o de 8 mil músicas históricas que agora fazem parte do acervo digitalizado da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro

“Canto para te ver mais contente 
pois a ventura dos outros é alegria da gente


(bum, bum, bum, bum, bum)

Canto e sou feliz só assim

Agora peço que cantes 
um pouquinho para mim”.

“Não posso mais viver assim
Ao seu ladinho
Por isso colo o meu ouvido
No radinho de pilha
Prá te sintonizar
Sozinha, numa ilha…

Sonífera Ilha, primeiro grande sucesso dos Titãs, já ganhou inúmeras roupagens através dos anos

“Tudo que ouvimos é rádio ga ga
Rádio goo goo
Rádio ga ga
Tudo que ouvimos é rádio ga ga
Rádio blah blah
Rádio o que há de novo?
Rádio, alguém ainda te ama”
(Queen – Radio Ga Ga)

Caríssimos ouvintes, obrigado
Pela atenção a mim tão dispensada
Nossa programação se encerra agora
Mas de teimosa, volta amanhã
Platéia de meus sonhos, tão amada
O canto é o chamado pra viver
Quando o show terminar, levem pra casa
Não deixem que ele morra por aqui
Eu quero alegria em cada voz
Que a antiga espera tenha a sua vez
E o sonho que carrego em minhas costas
É o laço de união entre vocês, nós”

(Rádio experiência, Milton Nascimento/Tunai)

Um certo Canivete Japonês

“Há que se ter um equilíbrio entre dureza e flexibilidade”, essa é a regra que um bom cuteleiro jamais despreza. A alma de uma faca resulta dos tratamentos térmicos a que é submetida e de detalhes na composição e forja de cada peça. Diz-se que não há quem não se renda à beleza das espadas japonesas. Muito da “mística Samurai” se deve a espada katana (cuja pronúncia é kataná) e sua forma de confecção estabelecida desde o ano 700. Quem não se lembra do ritual apresentado no filme Kill Bill por Quentin Tarantino? Talvez por tamanha fama das Samurais, os canivetes japoneses sejam menos lembrados.

Assim, dentre outras histórias e lendas está a registrada na faixa do álbum Mauá, que, sem se ater a pureza do aço superior ou às tradições dos canivetes Spyderco, festeja um “regalo” carinhosamente mandado do Japão.

Canivete Japonês – Flávia Maria