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Aline Nascimento e Silvio de Araújo - Rádio Linha Direta

Aline Nascimento e Silvio de Araújo – Rádio Linha Direta

Agradecemos aos amigos da Rádio Linha Direta em São Paulo, SP, que nos receberam  numa conversa alegre e descontraída, cheia de histórias, poesia e muita música.

Valeu Cidão,  Silvio,  Paulo,  Aline e  Galdino!

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V
Chove lá fora sobre as serranias de Aiuruoca.
Chove lá fora sobre o gado em aboio.
Chove lá fora sobre os bambuais e o rio.
Chove lá fora sobre antigos caminhos da minha
[ infância,
com arapucas armadas e rolinhas,
e folhas úmidas nos pés descalços,
e lírios já orvalhados.
Chove sobre os pirilampos no escuro
em verde fosforescência.
Chove sobre o corpo de minha mãe doente,
exposto ao tempo e à febre.
Chove dentro do meu peito.

Chove uma chuva miúda e triste.
Chove, afinal, sobre os telhados do mundo.
(…) Gilberto Nable

Basta Querer

“Sois bons de incontáveis formas, e não sois maus quando não sois bons, Estais apenas atrasados e com preguiça. É uma pena que os cervos não possam ensinar a velocidade às tartarugas.” (Khalil Gibran – O Profeta)

PREGANDO MISSANGAS EM PANOS DE ALGODÃO

Dizem os compositores que o silêncio é tão importante quanto os sons. Tempo, contexto e ação estão na dimensão inventiva da criação. No agir está a assimilação dos efeitos de acúmulos e a temporalidade ou, sua situação em determinado fragmento do curso da vida.

O agente portanto,  nunca está numa posição isenta, ao contrário, encontra-se inserido na realidade do contexto social, mesmo assim, há os  que transcendem, criam suas linguagens, suas poéticas, seus acordes; frequências invisíveis do cosmo sonoro, memória de vívidos sentidos experienciados,  transformados em música.

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Walter Smetak (Zurique 1913 – Salvador 1984)

Talvez seja por isso que o músico Walter Smetak tenha dito que falar sobre música é besteira, e executá-la é loucura.  Concordo plenamente, e quem sabe devesse encerrar por aqui, afinal minha praia é mais contemplativa, mais visual; a matemática musical das plásticas sonoras é um código ininteligível para mim.

Pois bem, socorro-me então em Smetak e, parafraseando Herbert Vianna, talvez tenha encontrado a palavra certa que faça o mundo andar, Sras. e Srs.:

O INSTRUMENTO

Sim, o agente mecânico da execução, o objeto funcional, o recurso, o meio, o intermediário que, reduzido a escrito, em forma apropriada, é documento concreto, autêntico, provável e oponível contra terceiros.

Palavra com tantos usos, não será aqui o jurídico mas o musical à costurar alguns roteiros ou personagens, embora ambos os sentidos andem entrelaçados algumas vezes nesse episódio.

A escolha justifica-se com razão no “gringo maluco” o músico suíço/baiano Anton Walter Smetak, que passando pela Orquestra Sinfônica Brasileira, RJ,  e Municipal em São Paulo, foi parar em Salvador e, ao longo de seus estudos e pesquisas, enveredou por várias poéticas, chegando a construir mais de 150 instrumentos que continham em si o seu significado, o som e a composição, instrumentos musicais coletivos e instrumentos para a natureza tocar.

Deixou ainda, cerca de trinta livros, três peças de teatro e dois discos gravados com seus sons: “Smetak” e “Interregno”,  influenciando muitos outros músicos que vieram depois.

O MUSICAL E O POÉTICO

Instalações sonoras, ou obras para ouvir da trigésima Bienal de São Paulo evidenciam as muitas pontes construídas por esses universos paralelos e contingentes. O tempo é de multiplicidades, experimentações, re-significação. É possível ouvir o deserto do Arizona, uma aula de balé, a preparação de um mate, a combinação de instrumentos acústicos de confecção própria, o silêncio, e, até uma ode de línguas imaginárias, e as imagens, recriam-se na mente tranquila, disposta à sorvê-las.

 “Os pássaros cantam em passarístico,  Mas os escutamos em espanhol.  (o espanhol é uma língua opaca, com um grande número de palavras fantasmas; o passarístico é uma língua transparente e sem palavras) (…)
A língua dos pássaros é uma língua de signos transparentes, em busca da transparência dispersa de algum significado.”

Juan Luis Martinez, O Novo Romance, 1ª ed., janeiro de 1977, Santiago do Chile, p.128,  ( 30 Bienal de São Paulo, SP)

Athanasios Argianas

Athanasios Argianas – Máquina de música 19 ( o comprimento de um fio de seu cabelo, da largura de seus braços estendidos)

 “Sou também um músico. “Exponho” a música que é feita para funcionar como uma espécie de texto, para ser mostrada, em vez de ser escutada em casa.”

Athanasios Argianas sobre sua obra “Máquina de música 19” exposta na Trigésima Bienal Internacional de São Paulo, SP

 

 A trigésima e suas iminências poéticas integram diferentes universos, não só de coisas e artistas, mais de pessoas, que buscam conhecer fenômenos a partir deles mesmos, do exercício de fazer e de suas maneiras de comunicar e tocar, num processo consequente de compreensão do mundo e de si mesmo.

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CRUZAMENTOS

A vontade de integrar, de fundir a música regional no universal, ou o popular no erudito, já atormentou  compositores; para alguns soa impossível, para outros é disparate, contudo, o mais surpreendente é que já tivemos histórias de sucesso, tão importantes culturalmente, quanto outros movimentos da própria diversidade brasileira.

Lembro-me de um espetáculo que vi na estação Júlio Prestes na década de 90.

Novamente o instrumento é o elo.  Smetak usou a “cabaça” ou “porungo” e foi também com ele que o músico, compositor, artesão e artista Antúlio Madureira, construiu um de seus instrumentos acrescentando bambu e fios de cobre:  a “cabala”.

Na época teve destaque na TV executando Trenzinho do Caipira do maestro  Heitor Villa Lobos com um serrote.

Teatro Instrumental de Antúlio Madureira

Na Júlio Prestes o espetáculo era o “Teatro Instrumental” uma “usina” de sons, baseada em instrumentos como berimbau de lata, cabala, marimbau com arco, garrafone e outros apetrechos musicais além do serrote, mixados em muito frevo. Antúlio nos remete ao mundo armorial de Ariano Suassuna, não só pela composição Cavaleiro do Sol, que foi tema do filme “O Alto da Compadecida” mas por outras ricas coincidências.

A PEDRA DO REINO

É preciso merecer a graça da escrita, não é qualquer vida que gera obra desse calibre.  Escreveu Carlos Drummond de Andrade, sobre o advogado,  professor,  literato,  teatrólogo  e

Ariano Suassuna

romancista Ariano Suassuna; isso lá em 1971 quando do lançamento de sua obra de quase 800 páginas relançada em 2005: “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, estranha epopéia cheia de casos supostamente históricos, guerras e armadilhas, elevação e trucidamento de reis, rainhas e princesas.

Tudo conforme o Movimento Armorial, por ele deflagrado anteriormente através do concerto “Três Séculos de Música Nordestina: do Barroco ao Armorial”, que tinha ainda uma exposição de gravuras, pinturas e esculturas, seguindo a proposta de realizar uma arte brasileira erudita, a partir das raízes populares da nossa cultura.

Um dos produtos mais bem sucedidos desse movimento, talvez seja o Quinteto Armorial criado em 1972.

Quinteto Armorial

O grupo era composto  por rabeca, marimbau, viola caipira, violão, zabumba, violino e flauta transversa. Seus integrantes eram Antônio José Madureira, Egildo Vieira do Nascimento, Antonio Nóbrega, Fernando Torres Barbosa e Edison Eulálio Cabral. Este último depois foi substituído por Antonio Fernandes Farias. Deixaram quatro LPs gravados antes do término do grupo em 1980. “Do Romance ao Galope Nordestino” (1974), “Aralume” (1976), “Quinteto Armorial” (1978) e “Sete Flexas” (1980)

Antônio Nóbrega seguiu carreira solo, e seu trabalho mantém profundas relações com o Armorial. Inesquecível o espetáculo Lunário Perpétuo que lhe deu projeção abrindo as portas para outros projetos.

 

Ariano Suassuna é sem dúvida a obra prima da brasilidade! Inigualável, único, apaixonante e, “Quixotesco”  como ele mesmo gosta de intitular-se em suas aulas espetáculo e palestras pelo Brasil afora. Depois de vivenciar suas realidades transfiguradas, rememoro a  dívida que ele tem comigo e com os demais leitores do Romance da Pedra do Reino:

 “Para falar a verdade, nobres Senhores e belas Damas, os versos tinham sido um pouco modificados para a ocasião. Por exemplo: ali onde o genial Vate paraibano tinha colocado “águia” eu ordenara que pusessem o brasileiríssimo e sertanejo Gavião Tourano, que sendo a Musa dos folhetos dos Cantadores, servia muito melhor de insígnia para minha realeza do que aquele bestíssimo Gavião estrangeiro que é a águia. Na essência, porém, era esse o Enigma e logogrifo em versos que cantavam e que aproveito para, com ele, dar por terminado este folheto e romance do Canto Genial da Raça Brasileira.”

ilustração de Zélia Suassuna

ilustração de Zélia Suassuna

   — Ah, não! Que é isso? Coragem, Dom Pedro Dinis Quaderna! Quer encerrar os depoimentos antes de terminar a história? (…)

 — Isso não significaria grande coisa não, Sr. Corregedor! É até uma tradição dos Romances epopéicos sertanejos, isso de ficarem incompletos!

 

Mais sobre Ariano Suassuna:  http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=227&sid=305

Por Zizi Pietroski

UM HOMEM COM UMA DOR É MUITO MAIS ELEGANTE

      O pitoresco sempre chama a atenção, não? Como não notar uma pessoa com cacoete? Esses hábitos ou manias que muitos repetem sem notar: mexer no cabelo, nos óculos, cutucar a unha, subir as calças ou esticar o pescoço como se estivesse enforcado na gravata; são tantos os gestuais conhecidos como “tiques nervosos” mas, tocar ou coçar o nariz involuntariamente, talvez leve o troféu.

      Nem mesmo Slavoj Žižek, renomado filósofo e pensador, famoso por criticar as culturas atuais e interpretar inventivamente o mundo contemporâneo, escapa. Basta assistir um de seus vídeos para perceber que o também chamado “Elvis Presley” da filosofia, ou “rock star intelectual” gesticula, é incisivo, ágil e convincente, mas seu nariz não descansa, é exigido a cada minuto, então, haja esforço e concentração para esquecer o nariz e ouvir atentamente os ensinamentos do professor esloveno.

      Heróico esforço é manter a seriedade quando o cacoete é de linguagem, alguns são graves, outros nem tanto.

      Exemplifico: acabo de chegar da fisioterapia. Já viram como recepcionistas ou atendentes de clínicas são prestativos? fui logo recepcionado com um sonoro: – “tudo bem?” Por óbvio que se estivesse bem eu lá não estaria. Contudo, se ela me perguntasse:  Como está? ouviria com certeza, outra pérola, que já deveria estar desgastada pelo uso: – melhor que ontem e pior que amanhã, ou talvez, num instante sombrio limitasse a resposta às dores, ordinárias companheiras inseparáveis, ou ao corriqueiro, tudo bem, quem sabe.

      Esse é um dos males dos vícios de linguagem. Fala-se por falar, para impressionar ou por “força de expressão”.

      Quer evidência maior que esta? Certa vez um amigo foi convidado para representar uma sociedade em um passamento ilustre, e, impossibilitado de fazer-se presente, autômato responde: “Fica para outra oportunidade”… o ilustre teria que se dar ao luxo de morrer novamente.

      Mas, vamos ao tratamento. Eis que já no início da sessão sou orientado a tratar a dor com ondas curtas, penso nas ondas curtas e médias: – não dá para ser em FM?  Risos. Afinal, rir não é o melhor remédio?

      Juca Chaves já afirmou que no dia em que despertou sem dor, achou que tivesse morrido.

      Sobrevive-se  zombando  da  própria  dor.   É  o  que  me  socorre.

    Há que se ter bom humor, ainda que negro por vezes. Esse costuma ser o melhor deles. Aprendi a tripudiar da dor. Apanhado rindo dela, já fui questionado: tá rindo de que? Quando é possível fazer graça, conto que a felicidade se dá porque já tenho um pé no céu, não deixa de ser verdade. Talvez um tanto chocante, mas como foi em1969,  aos 09 anos de idade, que perdi a perna em um acidente, sigo brincando com a dor e no melhor estilo Monty Python, vivendo a vida como ela é.

“De que máscara
 se gaba sua lástima,

de que vaga 
se vangloria sua história,

saiba quem saiba.”

(Leminski)

A lástima pode ser de outra natureza e Marisa Monte a traduziu melhor em “De Mais Ninguém”

“… A dor é de quem tem. É meu troféu, é o que restou, é o que me aquece sem me dar calor. Se eu não tenho o meu amor, eu tenho a minha dor.

     

       A música também era uma das paixões do paranaense Paulo Leminski. O chamado poeta marginal, publicou grandes obras que renderam uma discografia rica e variada. Letrista debochado como em Verdura gravada por Caetano, ou requintado na parceria com Itamar Assumpção; deixou extensa e relevante obra. Seu último poema, com trecho citado acima chamou-se Hai Kai.

Dor Elegante   

(Itamar Assumpção e Paulo Leminski)

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

A terra, o fotografo, a cidade, BR 500 e depois

Existirá a canção de Caetano
Cantada só ao hermano, ou não
Será que Gil já mandou mal
E como foi, Bethânia e Gal
O que será que será que fez Chico
Jogou no lixo, era tal qual Yolanda?

Partido em dois, o que virá depois?

Reginaldo, Waldick e Odair
Na mesa de bar a ouvir
o som desses moços e Roberto
Tá tudo bem, Tá tudo certo!

(“Tudo Bem”, Nelson Pietroski)

CANTE UM POUQUINHO PARA MIM

“Eu me sentaria sozinhoradio antigo
E olharia sua luz
Meu único amigo
Pelas noites adolescentes
E tudo
Que eu preciso saber
Eu escuto no meu rádio”


Já  se disse que à cada perda corresponde um ganho, e o fundamento básico seria que ao perder-se, abre-se o vazio indispensável para outras conquistas. Contudo, há o medo de perder-se que pode nos privar de tudo. Parece um clichê comum aos textos de auto-ajuda; mas a realidade cotidiana é infalível: tudo passa cada vez mais rápido. Inevitável perdermos alguma coisa. Por outro lado,  isso leva a encarar novas percepções, dimensões, estruturações, ainda que cheias de  ambivalências, vamos nos acomodando às perdas, aprendendo à administrá-las,  sobrelevando-se. Le paradis est toujours à refaire  assim resumiu André Gide, o paraíso deve sempre refazer-se.

Antigos anúncios testemunham o quanto as coisas mudaram:

“Rádio o que há de novo?
Rádio, alguém ainda te ama”

Um oásis se vislumbra na velocidade digital e na disseminação das bandas largas. Antigos megatons, megahertz, frequências de ZYJ como as difusoras do largo da matriz, tem migrado ao novo universo e o paraíso começa a refazer-se por completo.

“Vamos esperar que você não
Nos deixe, amigo
Como todas as coisas boas,
Dependemos de você
Então apareça,
Pois sentiremos sua falta
Quando crescermos cansados
De todo esse visual
Você teve seu tempo,
Você teve o poder
Você ainda terá
Sua melhor hora
Rádio”

Multiplicam-se exemplos de importantes resgates como o de 8 mil músicas históricas que agora fazem parte do acervo digitalizado da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro

“Canto para te ver mais contente 
pois a ventura dos outros é alegria da gente


(bum, bum, bum, bum, bum)

Canto e sou feliz só assim

Agora peço que cantes 
um pouquinho para mim”.

“Não posso mais viver assim
Ao seu ladinho
Por isso colo o meu ouvido
No radinho de pilha
Prá te sintonizar
Sozinha, numa ilha…

Sonífera Ilha, primeiro grande sucesso dos Titãs, já ganhou inúmeras roupagens através dos anos

“Tudo que ouvimos é rádio ga ga
Rádio goo goo
Rádio ga ga
Tudo que ouvimos é rádio ga ga
Rádio blah blah
Rádio o que há de novo?
Rádio, alguém ainda te ama”
(Queen – Radio Ga Ga)

Caríssimos ouvintes, obrigado
Pela atenção a mim tão dispensada
Nossa programação se encerra agora
Mas de teimosa, volta amanhã
Platéia de meus sonhos, tão amada
O canto é o chamado pra viver
Quando o show terminar, levem pra casa
Não deixem que ele morra por aqui
Eu quero alegria em cada voz
Que a antiga espera tenha a sua vez
E o sonho que carrego em minhas costas
É o laço de união entre vocês, nós”

(Rádio experiência, Milton Nascimento/Tunai)