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UM HOMEM COM UMA DOR É MUITO MAIS ELEGANTE

      O pitoresco sempre chama a atenção, não? Como não notar uma pessoa com cacoete? Esses hábitos ou manias que muitos repetem sem notar: mexer no cabelo, nos óculos, cutucar a unha, subir as calças ou esticar o pescoço como se estivesse enforcado na gravata; são tantos os gestuais conhecidos como “tiques nervosos” mas, tocar ou coçar o nariz involuntariamente, talvez leve o troféu.

      Nem mesmo Slavoj Žižek, renomado filósofo e pensador, famoso por criticar as culturas atuais e interpretar inventivamente o mundo contemporâneo, escapa. Basta assistir um de seus vídeos para perceber que o também chamado “Elvis Presley” da filosofia, ou “rock star intelectual” gesticula, é incisivo, ágil e convincente, mas seu nariz não descansa, é exigido a cada minuto, então, haja esforço e concentração para esquecer o nariz e ouvir atentamente os ensinamentos do professor esloveno.

      Heróico esforço é manter a seriedade quando o cacoete é de linguagem, alguns são graves, outros nem tanto.

      Exemplifico: acabo de chegar da fisioterapia. Já viram como recepcionistas ou atendentes de clínicas são prestativos? fui logo recepcionado com um sonoro: – “tudo bem?” Por óbvio que se estivesse bem eu lá não estaria. Contudo, se ela me perguntasse:  Como está? ouviria com certeza, outra pérola, que já deveria estar desgastada pelo uso: – melhor que ontem e pior que amanhã, ou talvez, num instante sombrio limitasse a resposta às dores, ordinárias companheiras inseparáveis, ou ao corriqueiro, tudo bem, quem sabe.

      Esse é um dos males dos vícios de linguagem. Fala-se por falar, para impressionar ou por “força de expressão”.

      Quer evidência maior que esta? Certa vez um amigo foi convidado para representar uma sociedade em um passamento ilustre, e, impossibilitado de fazer-se presente, autômato responde: “Fica para outra oportunidade”… o ilustre teria que se dar ao luxo de morrer novamente.

      Mas, vamos ao tratamento. Eis que já no início da sessão sou orientado a tratar a dor com ondas curtas, penso nas ondas curtas e médias: – não dá para ser em FM?  Risos. Afinal, rir não é o melhor remédio?

      Juca Chaves já afirmou que no dia em que despertou sem dor, achou que tivesse morrido.

      Sobrevive-se  zombando  da  própria  dor.   É  o  que  me  socorre.

    Há que se ter bom humor, ainda que negro por vezes. Esse costuma ser o melhor deles. Aprendi a tripudiar da dor. Apanhado rindo dela, já fui questionado: tá rindo de que? Quando é possível fazer graça, conto que a felicidade se dá porque já tenho um pé no céu, não deixa de ser verdade. Talvez um tanto chocante, mas como foi em1969,  aos 09 anos de idade, que perdi a perna em um acidente, sigo brincando com a dor e no melhor estilo Monty Python, vivendo a vida como ela é.

“De que máscara
 se gaba sua lástima,

de que vaga 
se vangloria sua história,

saiba quem saiba.”

(Leminski)

A lástima pode ser de outra natureza e Marisa Monte a traduziu melhor em “De Mais Ninguém”

“… A dor é de quem tem. É meu troféu, é o que restou, é o que me aquece sem me dar calor. Se eu não tenho o meu amor, eu tenho a minha dor.

     

       A música também era uma das paixões do paranaense Paulo Leminski. O chamado poeta marginal, publicou grandes obras que renderam uma discografia rica e variada. Letrista debochado como em Verdura gravada por Caetano, ou requintado na parceria com Itamar Assumpção; deixou extensa e relevante obra. Seu último poema, com trecho citado acima chamou-se Hai Kai.

Dor Elegante   

(Itamar Assumpção e Paulo Leminski)

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra